É no mínimo curioso constatar que desta mão cheia de filmes, os dispensáveis são exactamente os mais recente. Pode ser que Of Time and the City seja uma boa surpresa - assim o espero; mas o que é certo é que se vai notando um certo declínio à medida que o tempo passa. E olhem que isso não é só um fenómeno cinematográfico. Digo eu: um optimista convicto.
Fachadas lisas e mulheres

A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica

Guggenheim, Las Vegas, 2001, OMA
Facto
em meados do mês passado, Salgado adiantou que, afinal, o número de processos desses [2] autores somava perto de 1200 no triénio em causa.
Temos muitos processos porque somos jovens e modestos e fazemos de tudo [...]
E o facto de o seu pai ter trabalhado no Urbanismo da câmara até há cinco anos e ter lá familiares não lhe facilita a angariação de clientes e a aprovação dos projectos?
De modo algum, basta ver as propostas de indeferimento que existem em muitos dos nossos projectos [...]
[...] até há três anos assinava muitos projectos de restaurantes e bares [...] que eram feitos por técnicos da CML que não os podiam assinar
[...] todos têm direito ao bom-nome.
Ps
Não é totalmente esclarecedora a notícia do público em relação à posição da Ordem dos Arquitectos sobre este assunto. Uma coisa é certa: nem todos têm direito ao bom-nome; sob pena de o bom-nome ir de encontro àquilo que são as regras deontológicas de qualquer cidadão.
Ou então a coisa pode ser vista de outro ângulo: fazer um projecto de 3 em 3 dias - isto se aceitarmos como verdadeiro o tal número de projectos [500] dado como certo pelo Público - equivale a uma invejável eficácia produtiva. Afinal tinha razão o Walter Benjamin.
Prima Donna
Manguito do Mangado


North by Northwest
Vandamm House [MGM: Boyle, Hornign, Pye, Grace, McKelvey], North By Northwest, A. Hitchcock, 1959
Das três razões que nos prendem ao sofá sempre que passa o North by Northwest, a mais racional deve-se àquela casa do Monte Rushmore. Desconfiavamos, claro, que a casa não ficava propriamente no Monte Rushmore; mas isso seria, quanto muito, um incómodo menor, face à curiosidade de saber a origem da coisa.
O que os edifícios provocam
E não é só por ter construído pouco que a sua obra constutui uma raridade, mas pela extraordinária comoção que os seus edifícios provocam.A morte de um arquitecto hiper-realista (obituário a Paulo Gouveia), Ana Vaz Milheiros, Público, 7 Nov. '09
Descuido crítico
5 Áfricas 5 Escolas; representação nacional na Bienal de S. Paulo, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Br.; 2009 [via DG Artes]
Estava para aqui a pensar por que razão é que ainda não li nenhuma crítica oficial às 5 Áfricas 5 Escolas. Mas logo percebi que todos os críticos de serviço estão de uma ou outra forma ligados ao projecto de Graça Dias.
Ora aqui está uma maneira fácil de acabar de vez com a crítica: vertê-la em arquitectura.
Adenda à entrada anterior
Por outro lado não posso deixar de pensar na acusação, curiosa, que me fizeram num desses Verões que nos vão salvando: a de que desprezava a Teoria. Não é que a autora de tão precioso mimo tivesse precisado com suficiente exactidão o significado de Teoria. Mas não me pareceu, durante um momento sequer, que se estivesse a falar realmente de arquitectura.
Petit Cabanon

1989

Princípios de Novembro
Nunca tive propriamente oportunidade de me cruzar com Paulo Gouveia. De lhe falar. Ou de lhe tentar dizer o como admirava as obras que lhe conheço. Se até agora isso era apenas uma condição, a partir de hoje a situação tornou-se irreversível. Facto que é demais lamentável.
Novembro não começa bem.
(ps: para o mensageiro, dir-se-ia não haver palavras para evitar o inevitável. Sad news indeed)
Beyond vs. Behind
Som da frente
Pensar que as pessoas morrem no momento que deixam de respirar é um erro. Na verdade as pessoas, tal como as gerações, começam a morrer muito antes, quando as suas referências falecem.
Adenda à entrada anterior
Fazer escolas em países cuja escassez implica ainda grandes e graves limitações para aqueles que aí habitam equivale a um acto de extrema generosidade. Inegável. Mas tornar essas escolas em momentos especiais - como especial é a escola de Hering - equivaleria a assegurar que a educação implica muito mais do que ter um espaço para estudar. Simplesmente porque a importância da educação reside, em muito, no modo como o mundo nos é apresentado, mais ainda do que a maneiro como ele nos é explicado.
Amanhã iremos ter a oportunidade de ver cinco propostas para cinco escolas em África, pensadas por cinco autores portugueses.
Nelas vão estar presentes os fantasmas mais ou menos recentes da nossa própria arquitectura: caixas brancas, abstractas, assentes em muros contínuos; estruturas modernistas a lembrar, não sem algum romantismo ou ingenuidade, os anos de ouro da arquitectura ultramarina [aquela, que tão bem copiava os brasileiros, com grelhas, pilotis, e tudo o mais]; ou aproximações de tom regionalista, melhorando, com algum eruditismo, modelos e técnicas locais.
A pergunta que nos resta fazer: porque é que a generosidade de Hering é ainda caso único?
Muito com pouco


Meti School, Radrapur [Bangladesh], Anna Hering e Eike Roswag, 2005
Ao contrário, no Sul, as regras são outras. As necessidades também. Como se não houvesse espaço nem tempo para outra coisa que não o assegurar da precariedade. Mas às vezes não é assim. Ou então é errada a ideia que nos diz que a precariedade não detém em si mesma a capacidade de superação.
Apontar para cima
Teoria da Arquitectura

Claudia Schiffer, Campanha Dom Pérignon '95, Karl Lagerfeld
[Zumthor] é como um homem que decide casar e anda à procura da mulher mais bonita de todas. É um esteta, sacrifica tudo à beleza e depois os edifícios ficam todos lindíssimos mas é como almoçar com a Cláudia Schiffer. É bonita e pronto.
Eduardo Souto de Moura entrevistado por Laurinda Alves, i, 5 Out.'09
[agradecendo a informação a HN, um fervoroso adepto de Laurinda Alves]
Canavilhas
Pode até não ser relevante para aquilo que se faça o sítio, qualquer que ele seja, onde se cresceu. Mas é óbvio que tudo isso se altera no momento em que o acaso implica que se cresça já não num sítio qualquer, mas antes nos Açores. É que os Açores não são um sítio qualquer. Na verdade não são sítio algum. São antes uma espécie de ideia.
Dessa forma crescer nos Açores implica de certa forma crescer numa ideia. Ora: tal facto tem, comprovadamente, sido relevante para aquilo que se faz. Ou nesta caso para aquilo que se irá fazer. Pelo menos assim se espera.
A queda

O Triunfo de Galateia, Rafael, 1511
ORDOS Project ha tenido la posibilidad de marcar un punto de inflexión, de abrir una puerta hacia el futuro, pero ha culminado convirtiéndose en un cementerio de cadáveres jóvenes.Se não estou em erro é o Pedro Gadanho que nos costuma brindar com uma história do La Haine, sempre que se falam de coisas como esta: C'est l'histoire d'un mec qui tombe d'un immeuble de cinquante étages au fur et à mesure de sa chute il se répète sans cesse pour se rassurer: jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien... mais l'important, c'est pas la chute, c'est l'atterrissage.
Ordos 100: Finales, no principios, Fredy Massad y Alicia Guerrero Yeste, in Exit Express 46, Outubro '09; publicado parcialmente no btbW.
Mau Tempo no Canal

Esta Arquitectura É!, Esta Arquitectura Não ! [mais conhecido como Senhor Ministro!], Manifesto Modernista, João Correia Rebelo, 1956, aqui em re-edição facsímile IAC 2002
A primeira explicação credível que terei ouvido para essa ausência de modernidade de Ponta Delgada veio da boca de um ilustre açoreano [palavra que se escreve com i, em vez de e; sem nunca lhe ter percebido a razão]: António Machado Pires; homem versado nos Maus Tempos dos Canais, para além do mais fundador da Universidade dos Açores.
Dizia Machado Pires que, por falta de contacto com o resto do mundo, o arquipélago conduziu durante séculos os tempos medievais que o descobriram; passando por isso ao largo dessa modernidade que só iria chegar num tardio séc. XIX, pela mão de uma pequena - mas ainda assim ambiciosa - elite que, entre outras coisas, se tinha decidido a construir a paisagem natural pela qual São Miguel é hoje reconhecida.
Não é que a modernidade não tenha existido nos Açores. Mesmo que tardia, existiu. E em força. Só que essa força foi toda ela canalizada para a reinvenção da mecânica paisagista da ilha, num misto de idealismo romântico e de modernidade calculista; pondo de parte – por evidente constrangimento ou por simples inutilidade – os tecidos urbanos.
Anos depois, num adiantado séc. XX em que metade da Europa se via a braços com esses frigoríficos brancos que se propunham higienizar o seu quotidiano, Ponta Delgada optava – sem qualquer hipótese de escolha, entenda-se – por seguir à letra os paradigmas de um Estado Novo muito pouco interessado em actos revolucionários; renovando-se à moda de um Português Suave de tom regionalista [isto é: com basalto a recobrir os betões que já ninguém dispensava].
Ainda assim, nada de muito diferente se passava por aí, sobretudo se comparássemos Ponta Delgada a qualquer cidade média portuguesa: novas praças abertas, monumentos limpos de incongruências históricas, arcadas e beirados. É aqui que entra em cena João Correia Rebelo, herói moderno; descontextualizado – como aliás o são todos os heróis modernos, com seu grito de guerra: Esta Arquitectura Não É! – apontando veementemente para o Teatro Micaelense, um belo exemplar de cine-teatros de beirado pastiche; daqueles que cresciam como cogumelos um pouco por todas as cidades médias -, e Esta Arquitectura É! – mostrando que a arquitectura erudita regional é uma outra coisa.
Correia Rebelo insurge-se, por escrito e desenhado, contra aquilo que apelida ser um embotamento total do senso poético das formas, renegando o desprezo absoluto pelas novas coordenadas em que se situa a vida do homem contemporâneo manifestadas por essa nova arquitectura micaelense, razão pela qual Rebelo afirma nada haverem – os autores dessa arquitectura, entenda-se – entendido da mensagem da tradição.
Depois, elegantemente, Correia Rebelo, chama, a essa renovação urbana e arquitectónica de Ponta Delgada: medíocre, indigente, cúpida e, claro está, falsamente regionalista. Se é verdade que a história viria a dar razão a Correia Rebelo – autor do mais modernos dos exemplares da arquitectura acoreana: a Pousada da Serreta, na Terceira [1968], e de um punhado de outras obras do mesmo tom – tal facto não o terá ainda assim isentado de cumprir, até ao fim dos seus dias, exílio por terras do Canadá, onde viria a falecer, já em 2006.
Libertada da incómoda presença desse moderno panfletário, Ponta Delgada lá pôde seguir o seu tão almejado zeitgeist continental; se bem que por pouco tempo. Porque à medida que Portugal [continental] se desamarrava das contingências dos largos anos de uma ditadura arquitectonicamente desinteressante; os Açores – e com eles, Ponta Delgada – paravam. E paravam sobretudo por falta desse dinheiro que terá permitido pôr em prática esse crescimento selvático das cidades, pequenas, médias ou grandes em Portugal Continental.
Dir-se-ia, não sem razão: foi essa paragem que salvou Ponta Delgada.
Esta Arquitectura Não é! Esta Arquitectura É!, ou o magistral malogro de Correia Rebelo [excerto], nas bancas com a última A21.
ps. alegadas razões editoriais da A21 levaram a que o texto original fosse publicado sem 15 das imagens que o ilustravam. Às que sobraram, faltam-lhes as respectivas legendas. Também o título foi reduzido.
Rogers?
Das cidades lúdicas e higiénicas.
Bem sei que isso pode ser sinónimo de romantismo decadente. Uma coisa é certa: é sinal de alguma idade. É que sou do tempo em que se por acaso apanhássemos o metro na estação [por exemplo] do Rossio, só nos podíamos apear lá para os lados da Rotunda, porque todas as outras estações eram mais pequenas do que o próprio comboio, o que fazia com que a última carruagem [por sinal aquela onde viajávamos sempre] ficava dentro do túnel. Bem sei que isto foi há já muito tempo. Na verdade era criança. Pequena.
Deve ser disso: das memórias de criança pequena serem poucas, mas graciosamente resistentes. O que é certo é que, por vezes, sobretudo nas estações mais vazias, ainda associo o metro àquelas galerias em arco, revestidas de pastilha verde parda, cinzenta de fuligem, com um vago cheiro a urina, que se misturava, no ar, com o fumo dos cigarros que toda a gente acendia enquanto esperava pelo comboio. Havia nelas um hálito acre, quase desagradável, que depois era compensado pelo aroma do café torrado, que se espalhava pelas ruas da cidade; isto quando ainda haviam torrefações de café um pouco por toda a Lisboa.
Já há poucas estações assim. Velhas. Sujas. A cheirar a urina e tabaco. Com gente estranha e senhoras a a carteira junto ao peito, agarradas pelas duas mãos. Pelo menos em Lisboa. Há-as, claro, em todas as outras cidades; embora devidamente vazias do fumo do tabaco. Do resto, tudo nelas se vai mantendo com alguma invariabilidade: a urina, a fuligem que tudo acinzenta, os cartazes rasgados. Uma ou outra luzes fundidas. Tubos a passar em todo o lado. Algum medo de olhar para os outros também. Podemos encontrá-las, a estas estações que têm escapado ao ímpeto renovador dos arquitectos e dos políticos contemporâneos, nas linhas que mais longe estão dos centros das cidades; como aquelas paragens de RER que servem sítios chamados de Gennevililiers, de Marne-la-Vallée ou de Bourg-la-Reine, já longe do alegre e aparentemente civilizado buliço de Paris. Também as há em Londres, e em Moscovo; até porque são afinal poucas as estações do metro de Moscovo que se parecem com palácios.
Na verdade a única cidade que as soube manter, a quase todas elas, decadentes, confusas e despreocupadamente funcionais é Nova Yorque. São fascinantes as entranhas das estações de Nova Yorque. Bem ao lado dos luxos da Grand Central há uma que cruza três ou quatro linhas, onde temos que baixar a cabeça para não bater nuns tubos ferrugentos, que pingam qualquer coisa parecido com água. Os próprios comboios dispensas por segundos a luz, cuja intermitência cria curtos mas inspirados lapsos de tempo durante as viagens. E ouvem-se ruídos pouco apropriados a quem já esqueceu a revolução industrial. Colombus Circle por exemplo: se lá em cima já nada se parece com as imagens nocturnas de Taxi Driver, aposto que a estação continua a mesma dos tempos em que Scorcese era bom realizador.
Não é que não aprecie essa tendência de tornar as estações numa espécie de lugar de lazer. Quer dizer: gosto de [tentar] acompanhar as frases escritas a caligrafia fina nos azulejos da estação do Parque; até porque a espera, que no passado serua acompanhada por um cigarro que se deitava, aceso, para a linha mesmo no momento em que a carruagem da frente ia a passar, se tem vindo por este dias a tornar mais monótona. Desde que é proibido fumar em lugares públicos. Mas é que, enfim, as estações cada vez mais parecem querer ser lugares, em vez de quererem parecerem aquilo para que foram feitas. As estações não são lugares. São máquinas. E, admito, pode ser que seja um romantismo tardio: mas gosto que as coisas pareçam aquilo que são. Sobretudo se forem máquinas.
E por isso esta crescente tendência para tornar lúdicas estruturas que por princípio não o são, sobretudo as tais estações - de metro, e de comboio - se tornam coisas muito pouco naturais. É certo o argumento: as coisas ficam muito mais agradáveis de usar. Mais verdes, mais sustentáveis até. Floridas e higiénicas, como aqueles anúncios dos pensos da Evax.
Não tenho nada contra as flores e as mulheres felizes, entenda-se. Apenas desconfio que aquela altura do mês está nos antípodas dos sorrisos das raparigas giras, contentes, e aos saltos. O mesmo se passa nas cidades: não é preciso andar sempre a sorrir, contente e aos saltos.
Vem isto a propósito de uma curiosa imagem [cuja origem infelizmente se perdeu, pelas memórias deste laptop], com um sujeito mesmo muito parecido com Mayakovsky, num lugar que aparenta ser a High Line. A imagem é curiosa primeiramente pelo facto de ter sido fotografado em Nova Yorque, não fossemos nós entretanto ter descoberto, não sem alguma surpresa, que o poeta terá sido um dos poucos revolucionários russos que se terá dado ao luxo de passear nas mais finas metrópoles ocidentais [e até de ter tido um filho americano de uma emigrée branca, mas isso são já outras histórias]; tendo inclusivamente escrito uma obra chamada exactamente de A Minha Descoberta da América [Moe otkrytie Ameriki, no original], datado de 1925 [há quem diga '26].
Mas o que esta imagem tem de maravilhoso - para mim, entenda-se - é poder olhar para a High Line como nunca a tinha visto, e recordar aqueles poucos momentos em que por ela passei antes de se ter transformado num popular lugar de diversões urbanas.
Não é que não ache poder vir a gostar da High Line como ela hoje é. Com certeza que irei. Gostar. Mas é que me parece que um dia destes ainda transformam as cidades todas em paraísos. O que, entenda-se, seria um aborrecimento. Mais até do que ficar preso no túnel, sem poder sair da última carruagem do metro.
How to recognise different types of trees...
Monty Python's Flying Circus: How to Recognise Different Types of Trees From Quite a Long Way Away, 1969. Repito: 1969. Há gente que tem quase quarenta anos e é mais nova do que isto.
Adenda à entrada anterior



Cmia - estaleiro de obra, a.s*; fotografias de J.P. Tavares, 2009
De certa forma é pelos restos das coisas - aqueles restos pelos quais ninguém se interessa - que de algum modo as coisas se podem explicar. Não é que os restos em si sejam importantes. Não são. O problema é que, aparentemente, os restos dão muito trabalho.
Os despojos do dia
The Remains of the Day [excerto], Kazuo Ishiguro, 1989
Sobre a confusão entre arrojo e estupidez

Igreja de São Francisco Xavier, Lisboa, Troufa Real [2009]
Depois não andem para aí a dizer que a igreja católica é uma instituição conservadora.
Não é. Não pode ser. É que há uma condição necessária ao conservadorismo [que, aliás, partilha com o progressismo]: a capacidade de pensar.
ps: A igreja de São Francisco Xavier encontra-se a fazer um peditório para ajudar à construção da coisa. No entanto é de notar: certamente já todos nós demos dinheiro para causas bem menos interessantes.
Da hereditariedade e dos seus equívocos
Sabendo de casos em que a hereditariedade terá dado os seus frutos - como aliás nos recordou há bem pouco tempo Tiago Borges com os casos Rudolf/Valerio Olgiati, Jean/Bernard Tschumi, a que se podem acrescentar os nomes de Eliel / Eero Saarinen -, resta saber qual a melhor forma de lidar com o contrário disso. Quer dizer: o que fazer quando a hereditariedade se transforma num logro?
Centro Cultural Avilés, Esp., Ana Maria Niemeyer, 2008 [em construção]
Vem isto a propósito do pretenso projecto de Oscar Niemeyer para o Museu de Arte Contemporânea de Ponta Delgada, e da [infeliz] confirmação que a autoria de tão grosseiro esboço pertence a Ana Maria Niemeyer.
Para além de neta do arquitecto e directora da fundação com o mesmo nome, Ana Marie é, aparentemente, responsável pelos mais recentes projectos do atelier Niemeyer, entre os quais o Centro Cultural Internacional de Avilés, nas Asturias, que por acaso até é parecido com o futuro museu na ilha de São Miguel. O rol de trabalhos de Ana Maria é tão impressionante quanto trágico.
Não sabendo o que fazer com tamanha fac[h]ada [nas costas de Óscar], resta-nos imaginar que a futura colecção do Museu de Ponta Delgada incluirá pinturas de Paloma Picasso e instalações de Zoe Nauman.
Sobre a Inerrância
Poder-se-ia dizer que estamos perante uma curiosidade sociológica: as obras da autoria de ex-colaboradores de Carrilho da Graça correm sempre o risco de se confundir com as obras do próprio Carrilho da Graça; concluindo-se, claro está, que a divergência não é propriamente a área de investimento prioritário deste atelier.
No entanto, para lá dos preceitos ideológicos e de todo o universo formal que estes acarretam, a coerência e a cadência tornam-se, aparentemente, uma virtude; o que de certa forma nos obriga a aceitarmos o valor de um sistema que se têm multiplicado através das várias gerações que passaram pela Marquês de Abrantes.
Estação Biológica do Garducho, Ventura Trindade, 2008 [foto José Manuel Silva, via HP]
Nesse sentido, a atribuição do FAD à Estação Biológica do Garducho premeia sobretudo a persistência e a inevitabilidade, mais do que propriamente o exercício da dúvida.
Não há aqui lugar a dúvida alguma, nem qualquer margem ao livre arbitrio; não fossem as palavras de ordem impressas por Fernanda Fragateiro nas paredes do edifício tornar a vacilação numa impossibilidade: acredite que a beleza é conhecimento, ou surgem as paisagem.
Também por causa destas frases - algo paradoxais, se pensarmos que têm origem numa artista como Fragateiro -, não me admiraria muito que o representante português no Júri FAD deste ano tivesse tido larga preponderância na decisão de premiar Ventura Trindade; que é o mesmo que dizer: premiar a inerrância.
Outubro
Falar sobre Irving Penn obrigaria, claro, a recordar o nú de Moss, a citar as icónicas capas da Vogue, ou a relembrar Miles. Haveria ainda que passar pelos outros corpos femininos, gordos, adocicados, tapados ou nem tanto. Mas na verdade tudo isso se tornou relativamente desnecessário.
Mies, Seagram e P. Jonhson, Irving Penn [1917-2009], 1955.
Pei?
Sobre os delírios eleitorais e outros pecados mortais
Esqueçam as minudências e as imprudências eleitoralistas em fecho de autárquicas. Tudo isso [regresso de Frank O. Gehry ao Parque Mayer incluído] se torna irrelevante a partir do momento em que o Açoriano Oriental [que, para quem não sabe, é o mais antigo de todos os jornais publicados em Portugal] anuncia a mais brilhante promessa arquitectónico-eleitoralista do século: Niemeyer.
Niemeyer? Repito: Niemeyer.
Aonde? Em Ponta Delgada.
A fazer o quê? Um Museu de Arte Contemporânea.
Não é que não deixe de apreciar fantasias. Gosto de fantasias. Adoro fantasias. Sobretudo se forem fantasias açorianas.
A questão, apenas de pormenor, é que já há um museu de arte contemporânea planeado para uma outra cidade logo ali ao lado: a Ribeira Grande, com projecto de Mendes Ribeiro e da dupla Menos é Mais. E não me recordo de haver nenhum Saatchi atlântico, nem mesmo Berardo Açoriano capaz de encher com arte contemporânea mais do que uma salinha, daquelas mais pequenas. Quanto mais dois museus.
Poder-se-ia, claro, alegar que a ausência de uma colecção de arte contemporânea não exclui a duplicação de museus, mesmo que distem menos de 20Km um do outro. Evidentemente que não exclui: haverá sempre algum sítio onde ir inventar conteúdos, mesmo que sejam nesses misteriosos museus da macaronésia; embora, claro, corramos o risco de faltar público açoriano para tanto museu.
O problema aqui é no entanto outro: estarmos - aparentemente - perante o maior logro da história arquitectónico-eleitoralista nacional, não fosse o projecto evidenciar grosseira e despudorada falsificação de Niemeyer.

Todas as imagens: proposta para o futuro Museu de Arte Contemporânea dos Açores, com anunciada [mas largamente duvidosa] autoria de Oscar Niemeyer, 2009. Agradecemos o envio da notícia a fonte devidamente identificada, mas que para o efeito permanecerá anónima.
Assunto em permanente acompanhamento. Claro está.
Sobre a retórica e o sentimentalismo
Não que os outros dias fossem maus. E no entanto os dias que têm passado pelo Khiasma, poeticamente doseados, revelam-se excepcionais para aqueles que apreciam bom senso e sensibilidade. O responsável: João Amaro Correia.
Habitar Portugal

Habitar Portugal 06/08, Exposição: Marina de Cascais, 4 de Outubro a 1 de Novembro.
Poder-se-ia concluir que grande parte da responsabilidade pela falta de discernimento como foram sendo pensadas as cidades e a arquitectura em Portugal é dos próprios arquitectos.
Esse fenómeno torna-se mais gritante com a visibilidade que a disciplina vem tendo; que faz com que o território seja mais e mais ocupado por objectos arquitectónicos que, para além da excepção de poucas obras ou de escassos autores, é pouco qualificada.
Aquilo que nos é oferecido, hoje, por parte dessa produção arquitectónica média sofre de voluntarismo em excesso. Um voluntarismo inútil. Exacerbado, muitas vezes inócuo. Um voluntarismo ingénuo, pouco dado a procurar registos que não aqueles que ela própria procura celebrar: a da excepção. Isto sem, no entanto, se aperceber que as condições que permitem tal excepção são, muitas das vezes, contrárias às suas próprias possibilidades.
A arquitectura portuguesa média é, hoje, sobretudo, um estereótipo. Uma coisa que procura repetir fórmulas, modelos e modos de pensar, institucionalizados pela arquitectura da excepção, que lhe serve de role model.
Para além da excepção [trecho], no catálogo Habitar Portugal 06/08
Adenda à entrada anterior

Miradouro, Museu do Vinho, Pico, Paulo Gouveia, 1999
A sua intervenção não é a de se calar perante o valor da envolvente, mas sim, com sensibilidade e inteligência, a de a manipular. Construir a leitura da paisagem, manipulando a percepção de quem a vê, é assim algo mais ambicioso e aliciante que a evidência da sua simples entrega. Aliás, a ideia e o prazer de construir é algo que o pequeno edifício respira.
Os Miradouros e o Mirante do Museu do Vinho [Trecho], crónica por Sérgio Fazenda Rodrigues para o Açoriano Oriental. As crónicas são regularmente publicadas no Açores 2010.
A casa dos sentidos

A Casa dos Sentidos, Sérgio Fazenda Rodrigues, 2009 [Ed. Arqcoop]
Desses textos, que misturam sem qualquer tipo de preconceito ensaio crítico, descrição ou simples divulgação de objectos arquitectónicos, publicados regularmente em semanários de grande tiragem o revistas generalistas, irão despontar a partir da década de 80, revelando edifícios e seus autores, mas também outros modos de pensar e de olhar para as nossas cidades, para as nossas casas, os nossos teatros, as nossas ruas e os nossos cafés. Esses modos de pensar e de olhar as coisas do quotidiano de um outro ponto de vista: do ponto de vista do arquitecto.
Várias séries de crónicas, publicadas n’O Independente, no Expresso ou no Público (muitas delas, curiosamente, também compiladas e editadas sobre a forma de livro), procuravam divulgar aquilo que era o trabalho dos arquitectos, ao mesmo tempo que nos faziam olhar de uma outra forma para as cidades e os edifícios que habitam o nosso quotidiano. Manuel Graça Dias terá sido um dos autores mais profícuos nessa arte de dialogar em torno da arquitectura, em programas de televisão e de rádio, em jornais e revistas. A ele juntam-se nomes como José Manuel Fernandes – que, entre outras coisas, é responsável por um conjunto de textos-guia sobre cidades e, de uma outra forma, Jorge Figueira, Ana Vaz Milheiro, Nuno Grande ou Ricardo Carvalho; estes últimos ambicionando o papel de críticos de arquitectura, de onde chegaram a dar pontuações aos edifícios, tal como o fazem os críticos de cinema a um filme que tenham visto.
De certa forma o trabalho de divulgação da disciplina por estes e outros autores contribuiu para que aquilo que rodeia o acto de pensar ou de fazer arquitectura fosse um pouco mais conhecido de todos nós; desconstruindo algum desse olhar especializado que é ainda o principal instrumento de trabalho dos arquitectos.
Com alguma humildade Sérgio Rodrigues diria que os textos presentes nesta Casa dos Sentidos - todos eles publicados anteriormente numa crónica semanal do Açoriano Oriental - são isso mesmo também: textos com ambição pedagógica, que desconstrói o seu olhar – ele próprio o olhar de um arquitecto e um académico, e portanto o olhar especializado – em torno do que é o seu próprio quotidiano, numa terra que não é a sua (um Lisboeta nos Açores); que, entre outras coisas, lhe permite (acha ele), ter uma distanciação crítica em relação ao que vê.
No entanto isso não é bem assim. Porque, ao contrário da divulgação da arquitectura feita por esses e outros autores – todos eles arquitectos – junto ao grande público, os textos reunidos nest’A Casa dos Sentidos não querem ser textos de divulgação de arquitectura. Repare-se: não há, aparentemente, nada que Sérgio Rodrigues aponte em cada um dos seus escritos, que permita classificá-lo como crítico, ou como historiador, ou como teórico de arquitectura.
Não é que o autor deixe de o ser. Crítico. Historiador. Teórico. É-o, porque a sua condição profissional e a sua própria educação possibilitam-lhe passear com um notável à-vontade nesses três campos. Mas aquilo que trespassa o conjunto de textos aqui reunidos ultrapassa em muito a crueza da análise estritamente profissional; e é isso que distingue então A Casa dos Sentidos de todo esse conjunto de textos sobre arquitectura que referimos anteriormente.
É que, ao contrário desses – que em muito se dedicam a um exercício taxonómico explicado em linguagem corrente -, aqui, Sérgio Rodrigues opta por pairar sobre os fenómenos. A sua intenção não é, por isso, simplesmente, a de os explicar.
Saber ver a arquitectura [Trecho], Prefácio ao livro A Casa dos Sentidos, de Sérgio F. Rodrigues, com lançamento na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa, 2 Out., pelas 18:00.
Chile
Chile: Public Works 1997-2007 from 0300TV on Vimeo.
Apostar muito
A Câmara de Lisboa [...] em Setembro, lança um concurso de arquitectura para a gare [do terminal marítimo], mas sem hotel nem galeria comercial.
Salgado explicou que é intenção da autarquia "apostar muito" [aspas no original] no lançamento de concursos de arquitectura de modo a "tirar partido do potencial dos arquitectos portugueses para a qualidade da cidade" e adiantou que, ainda antes do fim do mandato, pretende lançar vários concursos para projectar zonas nobres da cidade.
Adenda à adenda anterior

Armazém, The Chinati Foundation, Marfa, Texas, D. Judd, 1975 [?]
Por outro lado as coisas bem feitas têm [claro] uma outra beleza.
Adenda à entrada anterior

Casa, Vila Marin [Vila Real], Jorge Figueira, 2005
A clarificação da sua condição híbrida sem perda da identidade é um dos aspectos mais originais da obra em Vila Marim. Qual identidade? Portuguesa, o que não é sinónimo de limitada a um território, sendo tanto integração como diferenciação da nossa condição e do seu tempo, perante a circunstância de uma sociedade em rede na era da informação. O hibridismo é inclusivo, enriquecedor, mas também compromisso como aquele que marcou o processo histórico da arquite[c]tura portuguesa e ainda hoje prosseguido, tal como é mostrado nesta obra e na generalidade da arquitetura portuguesa recente.
Caminho e identidade na arquitectura doméstica em Portugal: ensaio sobre a casa em Vila Marim, Rui Ramos, via Vitruvius
Da ensaística generalizada
Sinal dos tempos: a academização da arquitectura tornou-se uma inevitabilidade.
Há, evidentemente, arquitectos a mais para tão poucas ambições arquitectónicas. Pelo que as gentes nela formadas terão, mais cedo ou mais tarde, de encontrar escapatórias se em prática quiserem pôr todo um saber acumulado por anos e anos passados entre mestrados e doutoramentos. Por isso os mais ambiciosos dedicar-se-ão, com afinco, à ensaística; que dessa forma se tornará num fenómeno em crescendo; conduzindo a um estado de esquizofrenia, por incapacidade de decisão acerca da importância relativa do objecto a estudar. Chegará assim o dia em que o número de estudos e a quantidade de investigadores ultrapassará o número de fenómenos e/ou objectos e/ou autores relevantes a estudar, relegando a academia para a ensaística das generalidades. Esquecendo-se porém que ela própria se torna inútil a partir do momento que de propõe enfrentar uma generalidade; ou não fosse isso uma clara contradição de termos.
A Montanha Mágica

Sanatório Paimio, Finlandia, A. Aalto, 1932 [imagem via Landliving]
Ciplox [500mg], Adrovent, Ciprofloxacina Teva [500mg], Beclotaide, Ventilan, Fluimucil [600mg], Omeprazol [20mg]: é incrível como em pouco menos de um século a química veio substituir certas necessidades arquitectónicas por uma mão cheia de pastilhinhas e sprays que se vão sugando de 8 em 8 horas, levando pelo caminho todo o potencial dessa linhagem da literatura hospitalar que pereceu com o fim dos sanatórios.
Não é que não se vá escrevendo, aqui e ali, sobre hospitais. Quer dizer: livros com histórias passadas em hospitais, com médicos e tudo. Hoje escreve-se, aliás, sobre quase tudo.
A questão é que as probabilidades literárias de se escrever algo passado num hospital são hoje similares às próprias probabilidades arquitectónicas de um hospital.
Poder-se-ia alegar a vantagem temporal de tal avanço. E no entanto o tempo de uma doença, hoje, nem sequer dá para ler um livro com mais do que 600 páginas. Quanto mais para o escrever. Quanto aos hospitais, não me lembro de achar nenhum decente, nos últimos 50 anos.
Deve ser por causa da química.
O arquipélago da insónia
Questiono-me acerca da popularidade da autores cuja complexidade da obra faria adivinhar uma difícil relação com aqueles que a procuram apreciar. Veja-se Lobo Antunes: a sua escrita não será propriamente consentânea com a aparente adesão massiva aos seus livros.
De facto a obra de Lobo Antunes tem vindo desde há muito a adensar-se. A abstractizar-se. Tornando a leitura cada vez mais exigente. Há, cada vez mais, frases cujo acabar só vai sendo encontrado por muita atenção, páginas à frente. Palavras deixadas a meio. Ou começadas desse meio para o fim; sendo a sua complitude alinhavada por uma frágil, brutal estrutura, cuja conjugação é tudo menos evidente.
Ao mesmo tempo que o desenvolvimento da obra nos vai embrenhando num mundo que não sabíamos existir, a escrita desprende-se da sua própria origem, libertando-se da referenciação inicial.
É nesse momento que percebemos estar perante algo único.
Acredito, evidentemente, que as Universidades onde se ensina literatura passem, a determinada altura, pelos lugares comuns; investindo só depois no único. Aprender literatura não é tarefa evidente, pelo que se impõe sabermos-lhe primeiro o óbvio, nem que seja para depois o deitar fora.
E no entanto há aqui uma dificuldade: como é que se ensina literatura pondo de parte a sua complexidade? O problema torna-se ainda mais evidente se falarmos de arquitectura: como é que se explica Lobo Antunes a um estudante de arquitectura?
Anderson
A única questão que aqui se me levanta é a de saber qual o preciso momento em que um filme deixa de o ser, para passar à categoria de monumento.
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